Personalidade Anêmica

É engraçado que logo depois de escrever o título me deparei com o fato de que talvez ele passe a impressão oposta ao que quero dizer. Se eu digo personalidade anêmica, pode parecer uma personalidade sem viço, sem intencionalidade, mas deixe-me elaborar, é o exato oposto.

Eu sou uma pessoa que flerta desde a infância com a anemia. Já tive crises da minha mãe inaugurar um open bar de bife de fígado na minha casa, sorte que eu adorava aquela carne gelatinosa e nojenta, o gosto era magnífico. Hoje eu não como carne, porém quando cuido da minha alimentação, não tenho crises, mas se eu descuidar, ela volta. Bom, ela voltou e deixou minha imunidade no chão. Me vi doente, com sintomas diversos que não encaixavam com nenhum diagnóstico preciso. Mediquei os sintomas e estou melhorando aos poucos. A febre cessou e o que sobrou foi um desânimo. Mas um cansaço e desânimo tão profundos que eu me sinto uma mistura tédio e preguiça o tempo todo. Meu corpo entrou no modo economia de energia. Minha mente entrou em economia de energia e eis que a mágica aconteceu.

Como se tivesse adquirido um pacote premium, repentinamente, meu cérebro passou a calcular o tempo todo o que é mais importante: isso ou aquilo? Pra uma pessoa extremamente agitada com mil projetos e pensamentos coexistentes, priorizar é uma habilidade extremamente necessária porém sempre foi inexiste, até agora. E foi assim que meu cérebro anêmico ficou mais aguçado, mais rápido, mais eficiente. A birra da minha filha já não era tão enlouquecedora, porque me estressar seria um gasto de energia desnecessário, especialmente para resolver algo que não tem solução. Por outro lado, para o abraço, o beijo e as brincadeiras, meu sistema de gerenciamento de energia permitiu que utilizasse de uma certa reserva. As conversas no whatsapp ficaram mais focadas e objetivas, o tempo no Instagram praticamente zerou. 

Surpreendentemente, para a arte, meu cérebro anêmico está absolutamente focado. Estou com uma vontade irresistível de tirar uma música de uma série que gostei no teclado e a ideia desse texto não pôde deixar de ser colocada em prática ainda que esteja gastando meus últimos 5% de energia no final da noite. Eu sabia que amar minhas filhas era prioridade, mas é a primeira vez que priorizo a arte de uma forma absolutamente natural e sem sentir culpa. É ou não é de se comemorar?



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