A "maldade" feminina


Essa semana eu achei uma poesia que escrevi, perdida nos meus arquivos. Ela não tinha título, por isso escrevi e nunca mais li. Segue a poesia pra quem estiver curioso:

Não vou mais reprimir

Enterrar com mais uma pá de cal

Não quero mais me redimir

Vou mostrar do que se faz 

Não uma mártir, vítima, trouxa, ingênua, boazinha

Mas uma pessoa completa que já não é função

Objeto de Predileção

Empregada do coração

Cuidando tudo e todos e se deixando descuidada

Surrada, maltrapilha, coitada

Coitada, basta, basta


Contra todas as probabilidades

Aquela que usa suas habilidades

Para proveito próprio

E não tem empatia

Uma vilã pari

Para buscar por vingança

Por tudo aquilo que engoli

Incontrolável, com a língua afiada

Um olhar pouco amigável

Meus limites já não se pode invadir


A parte mais legal de reler um texto próprio esquecido é poder analisá-lo de forma quase que imparcial, e foi o que fiz. Percebi que por algum motivo eu relaciono me cuidar e fazer as coisas por mim como maldade, coisa de vilã, que interessante! 


Dias depois, conversando com uma amiga, eis que ela me diz algo muito parecido como: “Esse ano eu vou ser cruel, vou fazer as coisas por mim” e isso me remeteu a poesia na mesma hora. Então não sou só eu que penso assim. Como duas pessoas que têm personalidades, vivências e principalmente criações totalmente diferentes, compartilham uma visão tão específica sobre o assunto?


Esse tipo de frase jamais sairia da boca de um homem. Homens não relacionam cuidar de si com maldade ou egoísmo. Então deve ter algo na nossa socialização, como mulheres, que nos leva a chegar a essa conclusão. Como mulheres somos socializadas para cuidar. Na primeira infância ganhamos panelinhas e vassourinhas enquanto que os homens ganham carros e aviões. Mais tarde, conforme crescemos, vimos os homens na sala durante as reuniões de família, enquanto tiramos a mesa e lavamos a louça com nossas mães, tias e primas. Na adolescência, assistimos nossos irmãos saírem e ficamos pra ajudar nossa mãe a cuidar da casa e dos irmãos mais novos e na vida adulta, somos envergonhadas por sair sem nossos filhos enquanto os pais são incentivados a cultivar uma vida social, independente da paternidade.


O “instinto materno” é treinado ao longo de anos durante a nossa infância até que fique tão internalizado que homens se sentem autorizados a dizer "não tenho jeito com criança", dando de ombros enquanto que a mulher tem que se virar com um bebê aos prantos.


Mulheres sem filhos não escapam dessa dinâmica, muitas vezes virando a cuidadora principal dos pais na velhice. Aliás, vocês já perceberam que cuidadores de idosos geralmente são mulheres? Não é coincidência, o trabalho de cuidado não remunerado recai sobre as mulheres e ainda hoje em 2025 temos as profissões relacionadas a cuidado como professores e enfermeiros exercidos por maioria feminina.


Olhando por essa perspectiva, não é de se estranhar que nos sentimos más, vilãs ou cruéis quando nos recusamos a exercer um papel que nos foi reservado a centenas de anos. Mas será que é justo que sejamos as únicas responsáveis pelas crianças, idosos e pessoas com deficiência da sociedade? É justo exercer um trabalho de cuidado, que é verdadeiramente um trabalho, sem ser remuneradas e ainda ter que trabalhar em outros empregos, tendo jornada dupla ou tripla? É normal não ter tempo para cuidar da saúde, bem estar e lazer e ainda se sentir culpada por querer se priorizar?


Enquanto refletimos, no Instagram, uma influenciadora cuidadora da mãe com Alzheimer se justifica por fazer academia e sair com as amigas de vez em quando, sem a mãe, como resposta aos questionamentos e até cobranças dos seus seguidores. É... precisamos melhorar, pra ontem.


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