Fobia


Me preparo com antecedência, mas só de pensar no que vai acontecer,  faz suar minhas mãos e a nuca. Faço um check up no carro: óleo, freio, água, gasolina, tudo certo. Olho o mapa, tantas vezes que até decoro o caminho. Melhor ir cedo pra voltar logo e não ter perigo de encarar a noite. 

Respiro fundo, endireito o corpo no banco, dou partida e dirijo relaxada até chegar na rodovia, mas a aparição do tapete grafite, faz meu coração disparar. Continuo, preciso seguir. Sigo, mas um caminhão lança um golpe de ar no parabrisa e me desestabiliza, o carro faz um vai e vem na estrada e eu paro no acostamento, tremendo.

Sou teletransportada para uma noite estrelada, em que eu vou como passageira  tranquila com minhas preocupações de criança. Mas uma fumaça aparece à frente e meu pai pára o carro no acostamento. Conseguimos ver bem de perto um carro bater com violência em outros dois carros batidos e depois outro e mais outro. Meu pai invadiu a pista numa tentativa desesperada de convencer um marido a largar a esposa morta e se salvar na beira da estrada. Sem sucesso, depois dos meus gritos desesperados para voltar, meu pai retorna e vamos embora.

Deixamos a mulher morta, o homem vivo e todos os outros carros batidos, mas de alguma forma levei essa cena comigo. Ela se mantém muito viva na minha memória trinta anos depois. Me acalmo, e pego o primeiro retorno. Hoje não é um bom dia, melhor tentar denovo depois.


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