O que é ser gente?
O que é ser gente, você me pergunta. Pode parecer trivial a resposta, mas não é. Meu reflexo é pensar no “Início de Tudo”. Nascer é coisa de gente. Definitivamente. Será? Um bebê chora demasiado agudo, chegando ao mundo repleto de fluidos, faminto, orquestrando uma sinfonia incômoda até que seja alimentado por uma… teta? Algo absolutamente imoral, diga-se de passagem. Não, nascer não é coisa de gente, não mesmo.
Então penso na infância, toda criança brinca. A brincadeira deve ser coisa de gente. Mas, pensando bem, crianças são tão barulhentas, sempre se movimentando e gritando, os brinquedos espalhados por todo o lado. Não, brincar também não é coisa de gente.
Já sei, pra fazer gente precisamos transar, então. Sexo só pode ser coisa de gente. Mas tem os fluidos, é um tanto quanto anti-higiênico, não acha? Além dos barulhos e das caras e do gozo. Não, sexo não é coisa de gente.
Então parir é coisa de gente. Seria, se a gestante não ficasse o tempo todo agindo feito um animal, gritando, se encolhendo, agachando. Se ao menos ela ficasse deitada quieta na maca e deixasse os médicos trabalharem em paz. Não, parir não é coisa de gente.
O que resta então? Trabalhar muitas horas, sentar quieto, obedecer a comandos, se adequar, se conformar para pertencer. Ah… Agora estamos chegando a algum lugar. Meu sangue se tornando fluido de bateria, meus olhos brilhando uma luz LED hipnotizante, minha pele de metal reluz porque finalmente sou gente, pelo menos até ser substituída por outra mais potente.

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